Comeu ou não comeu?

Nos anos 1970/1980 não havia internet. Muito menos celular. Whatsapp nem pensar. As notícias – e fofocas – corriam de boca em boca. Nas escolas, os grupos eram mais definidos – o dos homens, uma espécie de Clube do Bolinha – e o das mulheres, o Clube da Luluzinha. Homens definiam mulheres em três categorias: as que eram para casar, as que brincavam, mas não davam, e as que davam de fato.

Rosalinda, mais conhecida como Rosinha, foi injustamente colocada pelo grupo de homens na categoria das que davam. E tudo começou quando um dos rapazes, o Clodoaldo, contou na roda que havia comido a Rosalinda. Deu detalhes: foi atrás de um muro, numa construção; Rosinha só ergueu a saia e baixou a calcinha. A notícia se espalhou rapidinho e Rosinha passou a ser vista como biscate.

Até que a história chegou aos seus ouvidos, trazida por Célia, sua amiga inseparável. Quem contou pra Célia foi seu namoradinho, um rapaz que não se cansava de tentar passar a mão em suas pernas. Em vão. Rosinha foi atrás da história e chegou no Clodoaldo, nessa altura com fama de comedor. O encontro dos dois se deu no corredor da escola. Rosinha não quis saber de conversa e enfiou dois tapas, dos bem dados, na cara do rapaz. Os amigos viram, e ele justificou, dizendo que ela estava brava porque não queria mais saber de comê-la.

O tempo passou, e eles – Clodoaldo, Rosinha, Célia – e eles voltaram a se encontrar na faculdade. Rosinha tratou de espalhar a fama de Clodoaldo, que era um cara que dizia comer todo mundo mas que na realidade vivia na punheta. O encanto terminou numa festinha, onde todo mundo ficou bêbado e ninguém era de ninguém. Dessa vez foi verdade – Clodoaldo comeu Rosinha. Só que dias depois, quando ele se vangloriava do feito, ninguém acreditou.
Rosinha deu pra outros colegas. Célia também caiu nas farras das repúblicas. E quando a rapaziada contava suas histórias, ninguém acreditava. Imagina só, justo a Rosinha, moça decente, feita para casar. Célia, sua amiga, impossível. Também feita para casar. E as duas, aproveitando a fachada da primeira mentira, solenemente espalhada, davam até.

Célia e Rosinha chegaram à formatura. Clodoaldo desistiu de estudar antes, pois precisava trabalhar. E anos depois, quando tudo parecia esquecido, se encontraram por acaso no Playcenter, um grande parque de diversões da Capital. As duas estavam acompanhadas, Clodoaldo com um amigo. E num descuido dos acompanhantes, que precisaram ir ao banheiro, Clodoaldo marcou novo encontro com Rosinha.

No dia e hora combinados, se encontraram, e Rosinha abriu o jogo: se quisesse comer ia ter de pagar. Sim, agora ela cobrava por seus favores. Célia também. E não era pouco dinheiro. Mas seria serviço completo. Clodoaldo tentou argumentar, invocou os velhos tempos, e nada. “Já que você disse que eu era biscate, resolvi ser puta. Quer comer, paga”. Sem dinheiro, o rapazinho ficou frustrado, e voltou para casa sem ter comido Rosinha. Telefonou para velhos amigos e contou a história; mas a maioria já sabia da profissionalização de Rosinha.

Célia morreu num acidente a caminho da praia, onde estava programada uma orgia no fim de semana. Rosinha, hoje passando dos 60 anos – quase 70 – continua vadiando. Vez ou outra arruma um homem para dividir sua cama – caidaça, enrugada, não tem mais clientes. Fez um pé-de-meia. Tem casa própria, carro e uma casa na praia. Passa as noites solitárias lembrando de seus tempos de juventude. Nunca descobriu que a rapaziada também a conhecia como Pizza Napolitana – dava pra oito.

CHICO MALVADEZA

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