Aeroclube de Jundiaí chega aos 80 anos voando como sempre

Um dos mais antigos aeroclubes do Brasil, o de Jundiaí é referência em instrução e segurança de voo. Fundação aconteceu no Gabinete de Leitura Ruy Barbosa

Emirates, Qatar, American Air Laines, Lufthansa são algumas das maiores empresas aéreas do mundo. Latam, Gol, Azul, estão na elite das aéreas nacionais. E o que essas empresas têm a ver com o Aeroclube de Jundiaí? Tudo. Muitos de seus comandantes e co-pilotos iniciaram sua formação em Jundiaí, sem contar outros profissionais que passaram por empresas que não existem mais, como Varig, Vasp e Transbrasil.

Essa é a tônica do Aeroclube de Jundiaí – excelência na formação e segurança de voo, coisa que já lhe valeu o Troféu Anésia Pinheiro Machado, o mais cobiçado por entidades destinadas à formação de pilotos. O aeroclube continua a existir como entidade civil e sem fins lucrativos, mas para a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), ele é o Centro de Instrução da Aviação Civil, coisa que apareceu na reformulação da agência.

O Aeroclube de Jundiaí foi fundado na noite de 2 de junho de 1941, numa reunião ocorrida no Gabinete de Leitura Ruy Barbosa. Havia gente articulando sua criação há meses, e nessa reunião foi escolhida sua primeira diretoria (veja quadro).

Na época, o mundo já vivia o pesadelo da 2ª Guerra Mundial, iniciada dois anos antes, e os alemães estavam nadando de braçada. Os Estados Unidos, até então, apoiava seus aliados (França e Inglaterra) e sentiam que logo estariam também na guerra. E que a guerra seria resolvida no ar. Trataram então de arrumar aliados, e com eles incentivar a formação de pilotos. No Brasil, o jornalista e empresário Assis Chateaubriand comprou a ideia e lançou a campanha “Dêem Asas para o Brasil” – empresários faziam doações para comprar aviões americanos a preço de banana. Dizia-se que Chateaubriand embolsava uma parte das doações. Os Estados Unidos entraram na guerra pra valer em dezembro do mesmo ano, quando, no dia 7, os japoneses (aliados deos alemães) atacaram Pealr Harbor.

A formação de pilotos foi iniciada em Jundiaí, e muitos deles foram para a Europa, voar com os aliados. Os aviões empregados eram os North American T-6, que depois da guerra formaram a primeira Esquadrilha da Fumaça (oficialmente, Esquadrão de Demonstração Aérea). Trinta anos antes havia sido fundado no Rio de Janeiro o Aeroclube do Brasil, que teve como presidente de honra Santos Dumont. Terminada a guerra em 1945, o aeroclube continuou formando pilotos, agora destinados à aviação civil.

No início, era uma pista de terra batida e bem menor que a atual. O aeroclube ocupou então o terreno correspondente à Fazenda Boa Esperança, formada por terras dos sítios Bonifácio e Romão. No ano seguinte, a Prefeitura declarou a área de utilidade pública e foi feita a desapropriação. Foi então que começaram as obras do Aeroporto de Jundiaí. Somente em 1965 o Governo do Estado bancou o asfaltamento da pista. Não fosse o aeroclube, Jundiaí não teria aeroporto.

Hoje o aeroclube ocupa área de 15.903m². Conta com pouco mais de 200 associados, com frota de 13 aeronaves (um Seneca bimotor, três Cesnna modelo 172 e nove Cesnna modelo 152. Tem seis instrutores e dois checadores (examinadores credenciados pela Anac) e quase 300 alunos matriculados. Possui simulador de voo e oferece todos os cursos, como PP (Piloto Privado), PC (Piloto Comercial), IFR (Instrument Flight Ruler e multimotores. Só não forma PLA (Piloto de Linha Aérea). O Aeroclube de Jundiaí tem como presidente Luiz Antonio Latorre, e como vice Vicente Martins.

Lúcia Prado Pereira é secretária do aeroclube há muitos anos, e filha do antigo zelador do aeroporo, o velho Prado. Ela vê o crescimento do número de mulheres interessadas na aviação. “Antes eram pouquíssimas, mas hoje há muitas mulheres procurando cursos e frequentando o aeroclube”, diz ela, mãe de dois filhos – Maria e Marcos Vinícius – ambos pilotos, formados também em Jundiaí.

A primeira diretoria

Presidente: José de Castro Marcondes
Vice-presidente: Amadeu Ribeiro
Secretários: José Sarmento Netto, Guilherme de Felipe
Tesoureiros: Hugo de Oliveira, Paulo O. Fray
Comissão de propaganda: Secundino Veiga, Casimiro Brites Figueiredo, Tibúrcio Estevam de Siqueira, Joaquim Silva Freire Bocayuva
Diretor Técnico: Francisco Blumer Pinto (aviador)
Diretor de Campo: Tenente Pedro Gouvêa

Domenica, agora no comando

Jornalista por formação, ela sempre se interessou pelo ar – tornou-se comissária de bordo, e desde abril já é uma PP (Piloto Privado)

Domenica Castro Di Gangi tem 28 anos, é solteira e formada em Comunicação Social. Nasceu e mora em Jundiaí. Seus pais são biomédicos. Formada, passou a trabalhar num canal de TV local, mas sentiu que não era bem isso que queria para a vida. Em 2017 fez o curso de comissária de bordo, e logo foi chamada pela Latam, onde ficou três anos, chegando ao posto de chefe de cabine. Mas seu negócio não era acalmar passageiros nem explicar quais as saídas de emergência de aeronaves – estava de olho no cockpit.

Em dezembro do ano passado começou seu curso de PP no Aeroclube de Jundiaí, e em abril deste ano ganhou o direito de pilotar sozinha, formada. “Não pretendo parar por aqui, diz Domenica. Vou fazer os demais cursos, e minha meta é ser PLA (Piloto de Linha Aérea)”. Ela acredita que sua atitude pode incentivar outras mulheres a fazer o mesmo.

Ela atribui sua vocação para os ares devido à convivência com os pais – o pai viajava muito, e de aeroporto em aeroporto, a vocação cresceu. As amigas aprovaram – e ainda aprovam – suas decisões. E algumas curiosidades de família: Domenica tem duas irmãs, uma bióloga e outra fisioterapeuta – e ninguém quer saber de voar. A mãe, por sinal, morre de medo de precisar usar um avião.

JUBILEU DE CARVALHO

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